¡No soy indio, carajo!

Notas sobre Yawar Mallku / O Sangue do Condor (1969), de Jorge Sanjinés, com base em reflexões apresentadas no encontro do grupo de estudos Cinema da América Latina e Vanguardas Artísticas do dia 29 de abril/2014

Por Lúcia MonteiroYawar+Mallku

Segundo longa-metragem do boliviano Jorge Sanjinés, realizado em 1969, Yawar Mallku / O Sangue do Condor é a história de duas lutas, narradas em paralelo. Primeiro, há o combate do líder indígena Ignacio Mallku (Marcelino Yanahuaya) contra uma organização norte-americana que promove a esterilização em massa das mulheres do povoado, sem seu consentimento nem informação — a comunidade só descobre isso depois que uma epidemia mata muitas crianças e as mulheres tentam engravidar, mas não conseguem. Em segundo lugar, está a batalha de seu irmão, Sixto Mallku (Vicente Verneros Salinas), que mora na cidade e tenta salvar a vida de Ignacio, baleado em razão de sua posição política. A dupla narrativa é organizada de maneira dialética, não apenas em função da articulação, pela montagem em paralelo, dos dois tempos distintos — antes e depois do tiro que fere Ignacio —, mas também pela relação entre o campo e a cidade, o índio e o branco. É Paulina (Benedicta Mendoza Huanca) que faz a ponte, ao levar o marido ferido para a cidade, em busca de ajuda.

Há muitas oposições na maneira como os dois mundos são retratados pela câmera de Sanjinés. O povoado de Kaata é visto em meio ao som de flautas tocando melodias indígenas e a paisagem montanhosa se deixa admirar com calma. Já a primeira aparição das ruas da cidade é acompanhada do som mais incisivo de cordas, talvez violinos; logo se vê a máquina de uma fábrica em funcionamento, produzindo um barulho agressivo. Ao encontrar o espaço urbano, a montagem ganha portanto um ritmo mais frenético, com planos curtos e a cadência da modernidade. A música contemporânea de Alberto Villalpando se alterna com a melancolia da guitarra de Alfredo Dominguez e o som de bandas militares, motores e buzinas de automóveis, num registro de excesso e inquietude.

No livro Teoría y práctica de un cine junto al pueblo[1],Jorge Sanjinés descreve o processo de realização de O Sangue do Condor. O cineasta dá conta, por exemplo, de que os nove integrantes da equipe de filmagem, depois de viajar 400 quilômetros entre La Paz e Kaata (os últimos 15, a pé), encontraram uma enorme resistência da população. Aos olhos dos habitantes de Kaata, eles eram “gringos bolivianos”. Afinal, como coloca Sanjinés, quem seriam “aqueles brancos que se dizem bolivianos mas sequer falam quéchua?”[2] No livro, o autor se diz arrependido por não ter feito um filme sobre essa negociação que antecedeu o início das filmagens. Marcelino Yanahuaga, chefe da comunidade, estava de acordo mas, apesar dos salários propostos, altos se comparados aos rendimentos que se costumava receber por ali, ninguém aceitava participar do projeto. A solução foi consultar o Yatiri, uma espécie de clarividente do povoado, numa cerimônia de Jaiwaco que a equipe de filmagem ofereceu — o Yatiri seria capaz de dizer se a equipe era boa ou má.

De fato, esse processo todo não aparece diretamente em O Sangue do Condor. O conflito entre os índios e os brancos está, porém, bem delineado no filme, mesmo quando (ou talvez principalmente quando) os últimos aparecem “cheios de boas intenções”. Em determinado momento, o casal de norte-americanos que vive no povoado tenta comprar todos os ovos que Paulina tem para vender na feira do dia seguinte. Ela oferece-lhes apenas três e eles acham que ela está perdendo uma oportunidade de ganhar dinheiro mais rápido. Pouco depois, os mesmos norte-americanos organizam uma doação de roupas para os integrantes da comunidade — mas eles as devolvem no dia seguinte. Por trás dessas situações está o comportamento dos brancos, ao mesmo tempo arrogantes e ignorantes da cultura, dos costumes e do pensamento dos índios.

É verdade que o retrato dos brancos aparece um tanto estereotipado, não apenas no caso dos norte-americanos, mas também no dos médicos da cidade, que tratam Ignacio com negligência e aparecem preocupados apenas com a própria vaidade, com a posição de poder que detêm. O objetivo do filme, é bom lembrar, era comunicar diretamente com as populações indígenas e talvez por isso não houvesse espaço para sutilezas.

As mais ricas contradições que o filme explora estão na caracterização de Sixto. Em sua primeira aparição no filme, ele está jogando bola e seu adversário o agride, chamando-o de índio. “Me ha visto nascer? No soy indio. ¡No soy indio, carajo!”, responde-lhe Sixto. Mais tarde, na casa dele, a cunhada Paulina observa fotografias de atrizes — brancas — de cinema afixadas na parede. Assim, apesar de suas feições, a identidade cultural do personagem permanece nebulosa: ele fala quéchua e espanhol; ele entende os códigos da sociedade moderna, urbana, e ao mesmo tempo mantém-se fiel a sua ética indígena. É, aliás, por seguir essa moralidade que o personagem não rouba a bolsa de uma passante. O furto talvez fosse a única solução efetiva para levantar com a urgência necessária o dinheiro de que precisava para comprar sangue, sem o que Ignacio não podia ser operado.

Em Teoría y práctica de un cine junto al pueblo, Sanjinés expõe os objetivos desse cinema, então embrionário: servir os interesses do povo; denunciar e explicitar os mecanismos imperialistas; ser visto largamente pelo povo; evoluir para incluir a participação cada vez maior do povo. A beleza, dizia ele, deve ser um meio, e não uma finalidade. Nesse sentido, o cineasta vê O Sangue do Condor como um ponto de transformação dentro de sua filmografia: segundo ele, o filme foi feito dentro ainda da ideologia burguesa, comum à classe dominante boliviana, “que fala espanhol e pensa em estado-unidense”, e, por essa razão, seria de certo modo vítima do imperialismo cultural que tentava expor. O desafio se recolocou nos trabalhos seguintes do Grupo Ukamau, com crescente participação popular e um desvencilhar gradativo da ideologia branca burguesa. De todo modo, é possível afirmar que O Sangue do Condor cumpriu seu objetivo de chegar ao povo. Quando da publicação do livro, dez anos depois do lançamento do filme, ele já havia sido visto por cerca de 250 mil pessoas na Bolívia. Nesse sentido, a censura, o boicote e o roubo de cópias que o cineasta enfrentou são acima de tudo provas de seu sucesso.

 

[1] Jorge Sanjinés, Teoría y práctica de un cine junto al pueblo, Grupo Ukamau, Mexico, Siglo XXI, 1979. Disponível aqui.

[2] Jorge Sanjinés, Teoría y práctica de un cine junto al pueblo, op. cit., p. 27.

O filme Yawar Mallku / O Sangue do Condor está disponível aqui.

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