Sobre o conceito de história de Walter Benjamin

As teses Sobre o conceito de história escritas por Walter Benjamin pouco antes de sua tentativa de escapar da perseguição nazista, têm a força de um manifesto. Mais do que uma proposta epistemológica, através dos 18 fragmentos que compõem o texto, o novo conceito de história cunhado pelo autor tem um sentido revolucionário. Como uma reflexão dentro da filosofia da história, os curtos e intensos fragmentos permitem discutir o modo como se trabalha a história dentro da história, como a filosofia pensa a história e ainda a própria ideia de sentido (que em si contém a noção de linearidade questionada pelo autor).

Repleto de metáforas e ironias, o texto por vezes adquire um aspecto enigmático e que produz estranheza pelas ideias articulados (como marxismo e teologia). É justamente através da fusão de conceitos e imagens que se revalida o materialismo histórico – tão referenciado nas teses – e que somos convidados a refletir tanto sobre conceitos consagrados quanto sobre o próprio modo de pensar, já que as associações pouco usuais rompem com hábitos mentais nos quais estamos presos.

Dentre as criticas desenvolvidas ao longo do texto Benjamin ataca com veemência a concepção de que a história se desenvolve através de um movimento mecânico que progride de modo Imagelinear e necessário em apenas um sentido. Como na metáfora do autômato (fantoche) que abre o conjunto de fragmentos, a história que é criticada opera como uma máquina maniqueísta que conduz automaticamente à um destino que se apresenta como uma prisão. No lugar dessa forma positivista de história, Benjamin propõe uma abertura da história, isto é, uma história que não conhece o futuro e que está aberta às distintas possibilidades. A crítica ao conceito de progresso (que no texto é dirigida ao progresso do capitalismo predatório e à uma visão evolucionista da história) deve ser pensada com cautela, afinal, toda luta e militância têm por finalidade promover melhoras, trazendo de antemão embutido em si a ideia de progresso.

Neste novo conceito, a história deve ser pensada como reminiscência, como um resgate militante que não recupera um passado qualquer, mas um passado que interessa ao presente. Como o ponto de vista proposto nesse olhar histórico é o do oprimido, interessa então resgatar aquilo que foi esquecido, que foi deixado de lado por não fazer parte dos bens culturais que testemunham as vitórias dos opressores.

Com o resgate da história dos vencidos o texto encontra Foucault. O autor francês teorizou e operou esse resgate, recuperando a figura e a história de sujeitos como loucos e presos que foram silenciados pela produção científica ligada aos rituais de verdade promovidos pelos que exercem e exerceram o poder. Como numa denúncia, Foucault resgata essas histórias escondidas por trás da história oficial, lembrando-nos que para compreender a sociedade é necessário olhar  para os modos como o conhecimento é construído e para o que se esconde nessa construção. Em Benjamin não se trata de uma proposta metodológica ou de denúncia contra os saberes consagrados; mais do que um novo modo de se escrever a história, encontramos aqui uma ação militante.

A própria estrutura do texto coloca em prática o que o novo conceito de historia propõe, privilegiando o fragmento em detrimento da linearidade. Do ponto de vista dos vencidos a história é uma sucessão de catástrofes. Todavia, na busca pelo contínuo o historicista organiza os fragmentos numa linearidade artificial que deixa para trás as rupturas que abalariam esse sentido único. O progresso é aqui justamente o movimento que organiza todos os fragmentos em uma linearidade e que ignorar desvios e rupturas.

Na proposição de Benjamin a recuperação do passado passa por uma imagem – proposta que se espelha na construção do texto. Atualmente vemos, de um lado, a negação da imagem em favor de outros sentidos e, de outro, o excesso de imagens que produz uma super-estimulação dos sentidos, compondo a intensificação da vida nervosa experimentada nas sociedades modernas de que nos fala Simmel. Para além desse excesso e de sua negação, trabalhar com a imagem nesse resgate do passado é bastante prolífero sendo, no mínimo, coerente com o caráter imagético da memória. Na reminiscências dos sentidos misturados é a imagem quem tem mais força.

 

História e cinema da América Latina

Com essas considerações nos perguntamos: como pensar a história do cinema da América Latina? Que história contar? Se toda história pressupõe um recorte limitado, que privilegia fragmentos e deixa outros de lado, o que devemos selecionar? O que é próprio do cinema da América Latina?

ImageComo deixar aparente os fragmentos ocultados e esquecidos pelo historicismo progressista? Como colocar em prática o que Foucault e Benjamin propõe, isto é como dar voz àquilo que não se ouviu e fazer ver no presente a irmã que não se conheceu? Não é tarefa simples, ou talvez nem mesmo viável, dar conta e costurar todos os fragmentos: como nos fala Benjamin o Anjo da história (inspirado no desenho Angelus Novus de Paul Klee) tenta lidar com os fragmentos mas eles se tornam cada vez mais numerosos e vão se acumulando sobre nossos pés, formando uma pilha de ruínas que cresce rumo ao céu.

Tal qual operado por Benjamin nas Teses, podemos na busca pela recuperação do não conhecido ou do que é pouco visível, recorrer a uma imagem aurática, isto é uma imagem que tem a força de resistência e que está a contrapelo. Mas como fazer isso no cinema da América Latina? Qual seria a imagem aurática que possibilitaria a construção de uma constelação? Quando falamos do cinema da América Latina estamos insinuando uma ideia da América Latina que é construída através da seleção e do recorte.

Nesse debate apareceram duas questões para o grupo que se mostram como possibilidades na construção dessa imagem aurática e em um recorte que pode interessar à essa história do cinema da América Latina: a questão indígena e a das lutas como resistência ao modelo político-econômico.

Na América Latina apesar da ampla e diversa, pouco conhecemos da produção audiovisual indígena. A figura do índio atravessa tanto implícita quanto explicitamente diversas produções audiovisuais, mas ele é largamente ignorado e quando aparece recebe o mesmo tratamento dado ao sertanejo, sendo pensado em oposição ao urbano e não como um personagem dentro do caldeirão étnico nacional. Assim como o cinema, a história, a arte e a cultura indígena não são discutidas ou conhecidas fora do campo antropológico. De modo geral, nos países de língua hispânicas da América Latina o recalque do índio é menor do que no Brasil, mas o racismo e a segregação entre campo e cidade são maiores,  mesmo em nações como a Bolívia que passou por revoluções marxistas.

Além da questão indígena a luta contra um modelo político econômico passa por diversas obras da América Latina e também pode ser pensada como uma das múltiplas identidades dessas produções, identidade que também se constrói  a contrapelo e que convém ser pensada nessa reflexão sobre qual história contar do cinema da América Latina.

Referência bibliográfica do debate:

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de História. In: Mágia e Técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1996.  Disponível aqui

Citações feitas no debate:

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: Mágia e Técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1996.  Disponivel aqui

FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder.  Rio de Janeiro: Graal, 2003.  Disponivel aqui

SIMMEL, Georg. A metrópole e a vida mental. In: VELHO, Gilherme. O Fenômeno Urbano. Rio de Janeiro: Zahar,  1973. Disponivel aqui

2 pensamentos sobre “Sobre o conceito de história de Walter Benjamin

  1. Ótima a discussão que o texto do Benjamin levou! Também acredito que a questão indígena deva ultrapassar as fronteiras dos estudos antropológicos, apesar de ser a base para não pensá-los como “aqueles que estão parados no tempo”, fruto do fetiche dos colonizadores e que até hoje vive no imaginário da sociedade nacional. Quanto ao fato de haver poucas produções audiovisuais vindas do próprio povo indígena, é recorrente a produção de documentários que giram em torno dos problemas relacionados a demarcação de terras – principalmente no Brasil -, e dificilmente ele é produzido ou pensado pela própria população que sofre com as indecisões do Estado. Talvez seja o momento de refletir porque a luta indígena não atinge profundamente os brasileiros. Provavelmente por entendermos que o modo de vida indígena seja “selvagem” e desligado da ideia de consumo e do próprio individualismo; mas devo deixar bem claro que nem todos os indígenas resistiram ao avanço do que chamamos de sociedade contemporânea. Diante dessa situação, muitos se aproveitam para deslegitimar os direitos dos povos originários, principalmente no que diz respeito aos territórios (não) demarcados. Por não entendermos o indígena como parte fundamentalmente integrante de nossa identidade, que tipo de cinema estamos construindo no Brasil e toda a América Latina?

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