Um Tigre de Papel

(“Un Tigre de Papel”, Luis Ospina, Colômbia, 2007)
por Grupo de Estudos Cinema Latino-Americano e Vanguardas Artísticas(CNPq/História da Arte – UNIFESP)

“Um Tigre de Papel” é a tentativa de reconstruir a história de um artista plástico colombiano, Pedro Manrique Figueroa, suposto precursor da colagem em seu país. Seria um documentário protocolar sobre a vida e a obra de um grande artista militante, não fosse o personagem nada convencional de Luis Ospina. A biografia do artista é imaginada como uma trajetória mirabolante, quase uma viagem picaresca de um anti-herói desiludido, outrora um simpatizante da vibrante esquerda colombiana.

As desventuras do protagonista permitem traçar uma linha do tempo que vai até os dias atuais e que começa na Colômbia dos anos 1930, década que antecede o primeiro período de violência que o país vive até hoje. Essa época foi marcada pelo assassinato do líder liberal Jorge Gaitán, que desencadeou uma série de protestos e provocou uma situação caótica, conhecida como bogotazo.

O percurso de Figueroa também permite colocar em pauta os movimentos e tensões que marcaram largamente a história do século 20, principalmente, a divisão do mundo entre socialistas e capitalistas. A Guerra Fria teve um grande impacto sobre os movimentos latino-americanos de esquerda, produzindo um clima, por assim dizer, esquizofrênico, que se instaurou no relacionamento entre seus membros. Perseguidos e jogados na clandestinidade pelas ditaduras que proliferaram na América Latina, todo militante era potencialmente um traidor. Na Colômbia da década de 1950, sob a ditadura de Gustavo Rojas Pinilla, a situação política era muito difícil e, em Bogotá, nos finais de tarde, tudo era tomado pelo exército. Os boêmios, artistas e intelectuais costumavam passar as noites no Café Automático, onde se vivia um ambiente de “revolução, utopia, vida e morte”, como afirma um dos entrevistados no filme.

Figueroa participou do bogotazo, foi considerado um traidor, sendo assíduo frequentador do famoso Café. Se a biografia deste personagem chama a atenção pelos feitos extraordinários e até inviáveis para um só homem, essas “inverdades” são tensionadas pela exibição de inúmeras imagens de arquivo de episódios largamente conhecidos, que carregam o filme de uma textura do “registro”, do acontecimento “real”. Por outro lado, combinar importantes eventos da história com o tradicional formato talking head não produz a esperada credibilidade da obra cinematográfica que recorre a esse tipo de associação. Como muitas vezes as entrevistas veiculam um conteúdo absurdo, ironiza-se, justamente, o gênero documentário como discurso da verdade, impedindo a simplificação do filme e evitando que se nele coloque a etiqueta de “falso documentário”.

Longe de se limitar à crítica irônica do documentário ou aos desdobramentos conceituais da tensão entre verdade/invenção, “Um Tigre de Papel” é um elogio à colagem, tanto que o próprio filme pode ser considerado uma longa, refletida e divertida colagem. A associação de intrigantes imagens de arquivo, de animações, de quadros e de entrevistas se traduz numa polifonia de vozes compostas por muitas línguas e sotaques, por diferentes ruídos, texturas e tons. Assim, pode-se dizer que o tema é a forma.

A ironia, a irreverência e a paródia contagiam à narrativa, de modo que a colagem, do tipo surrealista, domina o filme. Associações inesperadas desmantelam de maneira engraçada o formato do documentário. Ao pequeno filme sobre a ascensão de Mao, por exemplo, são acrescentadas palavras que, pela forma, parecem ser os créditos finais do curta – uma atrás da outra, as frases entram e saem do quadro, num movimento vertical –, mas que são informações sobre o nascimento do artista colombiano.

Nas colagens de Figueroa, o efeito cômico é produzido pela relação entre imagens e textos: “Bailando Con la Más Fea” é o título do quadro em que vemos Nixon nos braços de Stalin e, em “Los Huevos del Pecado”, cola-se na mão de um lavrador a foice e o martelo que esmagam os testículos do Capitão América. E estes não são os únicos exemplos. A maneira de mostrar esses trabalhos potencializa a irreverência, já que se parodiam as edições dos livros de artes ou as exposições artísticas. Uma crítica negativa inicia a avaliação da obra, mas logo é relativizada pela apreciação entusiasta de outros estudiosos e pela constatação da consagração do artista, evidente nos trabalhos apócrifos que começam a aparecer. O aspecto rudimentar e grotesco das colagens sobre um elegante fundo negro debocha da “recuperação” que o meio intelectual e artístico faz do artista “primitivo”, de origem humilde.

Divertidíssimo, o filme instrumentaliza o riso para uma reflexão crítica sobre os fundamentos que sustentam os gêneros narrativos que ele parodia – os documentários sobre artistas e as retrospectivas da televisão. O que está em jogo é o próprio conceito de História. Ironiza-se a necessidade de uma cronologia com a qual os críticos, curadores e historiadores pretendem ordenar diversos acontecimentos históricos ou a vida de alguém. Assim, a História, em “Um Tigre de Papel”, será uma narrativa composta de pedaços díspares que, combinados, produzem mais do que um significado coerente e apaziguador do passado.

 

Dessa maneira, mais do que a mera adoção da ironia e da paródia como retóricas da narração próprias à colagem, o filme parece endossar a ideia do artista alemão Kurt Schwitters, apresentada no início: se tudo foi derrubado, é preciso criar com os fragmentos que, recombinados, não mostram como as coisas são ou foram, mas o modo como são vistas pelo artista. A compilação que compõe a memória criada por “Um Tigre de Papel” só é possível pelo trabalho dos cinematografistas desconhecidos, os verdadeiros artistas ou autores do filme. Afinal, sem o trabalho deles não haveria memória, como o próprio filme afirma.

(Ensaio desenvolvido por ocasião do 8o Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, publicado originalmente aqui)

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