Tanta Água

(“Tanta Agua”, Ana Guevara e Leticia Jorge, Uruguai, 2013)
por Gerson Oliveira

“Tanta Água” propõe uma imersão na relação entre Alberto e seus filhos Lucía e Federico. Aparentemente, desde que se divorciou, Alberto não passa tanto tempo com os filhos, e a viagem de férias é a oportunidade ideal para reatar os laços familiares. Porém, a chuva constante atrapalha seus planos.

“Tanta Água” tem uma linguagem simples e sólida e desenvolve um apurado humor reflexivo que lembra outros filmes do cenário contemporâneo uruguaio, como, por exemplo, “Whisky” (Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll, 2004) ou mesmo “Gigante” (Adrián Biniez, 2009). Além disso, a aproximação a uma cena familiar um tanto desestruturada e, especialmente, ao universo feminino adolescente (em particular à esfera íntima do despertar da sexualidade), acerca o longa de diversas produções latino-americanas recentes, como as obras das diretoras argentinas Lucrecia Martel e Lucía Puenzo.

Alberto limpa seu carro de solteirão e o prepara para receber os filhos, indicando quão especial é o enredo que vamos acompanhar. Porém, quando as crianças chegam, instantaneamente percebemos que o encontro não será tão fácil. As insistentes tomadas dentro do carro, espaço do qual é impossível fugir do desconforto – principalmente devido à caprichosa chuva –, escancaram o tédio da longa viagem e a tensão que se estabelece entre os personagens e que aparece em enquadramentos onde se destacam os objetos e movimentos pequenos. Um salgadinho preparado pela mãe para a viagem das crianças pode mostrar melhor do que qualquer palavra quanto Lucía está distante do pai e como este ainda está magoado com a ex-mulher. Um plano do pescoço tensionado da menina diz tudo sobre seu estado de ânimo.

Esse tédio se difunde pela estada nas termas, onde tanta água, que não para de cair dos céus, impede qualquer atividade que possa aproximar os personagens. Alberto tenta, com seu humor e perseverança, contagiar os outros: “O que existe de melhor que piscina com chuva?”. Os filhos seguem os passos do pai aos tobogãs, mas em seus rostos podemos notar que, para eles, há muita coisa melhor que piscina com chuva…

O clima maçante é reforçado pela câmera fixa que observa os espaços e os personagens de modo a recortá-los nos cenários estáticos, enfatizando-se as linhas retas e ângulos duros dos mesmos: o plano geral do interior da fábrica que se visita a faz parecer um cenário de mentira; a imagem dos três observando a piscina sob forte chuva os mostra entre pilares e muros que fazem com que estejam dentro de vários quadros, como presos naquele local; e as termas são mostradas como um lugar que parou no tempo dos interiores caipiras, onde apenas velhinhos podem desfrutar. Não são lugares em que famílias desunidas possam se salvar. São um pesadelo para adolescentes.

A paisagem também não é nada convidativa. Na pequena cidade não há quase vegetação e tudo é muito cinza, não apenas por causa da chuva, mas também pelo concreto que domina os ambientes externos. Apenas numa das sequências finais, quando Lucía e o pai vão pescar, é que a dureza material e formal do cimento desaparece. As termas têm pequenos chalés sem nenhuma graça. Na parte interna são ainda mais deprimentes. Além de estreitos, sua decoração é lamentável: ao mobiliário barato se acrescenta uma cabeça de veado dependurada sinistramente na parede. É neste ambiente que a família vai ter que se suportar.

O enfado só deixa o filme para dar lugar a momentos embaraçosos – protagonizados, sem exceção, pelo pai – e para enfatizar as chispas que apartam os personagens, em especial Alberto e a adolescente Lucía. O pequeno Federico é um sopro de frescor que ameniza o ambiente: apesar da inabitual convivência com o pai, sua inocência e carinho infantis fazem com que ele seja mais maleável às investidas de Alberto, convidando a irmã também a ceder e participar.

“Tanta Água” é um filme de minúcias e detalhes que, ao final, se revelarão fundamentais. São alguns gestos e objetos fugazes que encenam o desenrolar da relação dos três. O par de tênis irrepreensível, que tem um destino desagradável, e os pés teimosos que não se deixam cobrir são apenas alguns dos indícios despretensiosos que sinalizam o desfecho. O silêncio, que no início era constrangedor, vai costurando um olhar, um pequeno gesto, um sorriso. Lucía, que parecia a mais distante, está profundamente ligada ao seu reencontro com o pai. Mas esse reencontro entre pai e filhos não tem nada de efusivo, é quase sorrateiro.

Da mesma maneira, aos planos fixos se misturam algumas tomadas com a câmera na mão. Sem contar a chuva que diminui, conforme o filme avança: da tormenta torrencial do início (quando podemos ter a impressão de estar vendo um road movie que caminha inevitavelmente para o fracasso) passamos à chuva e ao chuvisco, em seguida ao dia nublado, até a manhã ensolarada, que também acaba na água, mas a água das termas, muito mais aconchegante e brilhante.

Este filme nos convida, de uma maneira muito singular, a decifrar, na imensa superfície do tédio contemporâneo, os minúsculos sinais que dão, não digamos um colorido, mas outra dimensão a essa atmosfera cinza. Afinal, como ensina Alberto ao filho: o mínimo é mais.

(Ensaio desenvolvido por ocasião do 8o Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, publicado originalmente aqui)

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