A História Quase Verdadeira de Pepita, a Pistoleira

(“La Historia Casi Verdadera de Pepita, la Pistolera”, Beatriz Flores Silva, Uruguai, 1993)

por Dirceu Antônio Scali Júnior

O filme “A História Quase Verdadeira de Pepita, a Pistoleira” trata das vicissitudes de uma mulher de trinta e poucos anos, com uma filha pequena, e em dificuldades financeiras. Partindo da história de Pepita, pode-se vislumbrar como a questão de gênero é tratada no filme, procurando pôr em evidência uma visão da mulher sobre um mundo preponderantemente masculino, por vezes machista. O mundo dos homens é retratado em tons brancos, pretos ou cores esmaecidas, refletindo a inexpressividade dos poucos personagens masculinos que aparecem no filme: quando não são medíocres, são caricatos – como o gordo chefe de polícia, por exemplo. Aliás, o filme identifica a polícia com o universo masculino e não perde a ocasião de ridicularizá-la. É muito divertido, por exemplo, ver dois agentes pedindo documentos para uma senhora cega, pois o nonsense explicita, na verdade, a “cegueira” dos mesmos policiais que, minutos atrás, haviam permitido que Susana lhes escapasse, deixando-se enganar por suas desculpas inverossímeis (quando lhe pedem os documentos, ela diz que perdeu tudo e que estava indo ao banco para comunicar o extravio do talão de cheques). Com efeito, para ser apanhada, foi necessário que Susana facilitasse ao máximo e é impossível conter o riso na cena em que ela espera a polícia jogando tarô e olhando de quando em quando para a rua, a fim de ver se os policiais já haviam chegado. Tudo se passa como se ela jogasse paciência com seu próprio destino. O que está por trás da “cegueira da polícia” é a ideia de que a visão dos homens é dominada por preconceitos e estereótipos. Para os policiais, Pepita só poderia ser alguém perigoso e agressivo. Por isso, a princípio, não acreditam que ela seja uma mulher “comum” e buscam a pistoleira entre os travestis e outros suspeitos. Eles prendem a mulher errada, porque ela tem como marido um chino (homem moreno dotado de traços indígenas). Com efeito, para ser levada a sério por suas vítimas, Pepita afirmava que um chino cruel era seu comparsa e naquele momento estava nas imediações, observando o assalto e pronto para interferir, caso ela necessitasse. Susana apelava para o preconceito, bastante difundido, de que os malfeitores de traços indígenas são particularmente cruéis. Aliás, o western nos habituou a ver, no índio, um personagem cruel. O próprio fato de a polícia deixar Susana escapar várias vezes deve-se a ela ser loira, de olhos verdes e, portanto, acima de qualquer suspeita. O que move o mundo das mulheres são as histórias melodramáticas que Susana vê na televisão ou aquelas que conta para suas vítimas sobre as razões que a levaram para o mundo do crime. As cores fortes marcam o exagero sentimental que parece unir as personagens femininas. O encontro entre Susana e suas vítimas, quando de sua prisão, provoca certa comoção. As mulheres perguntam por sua filha e chegam a desejar-lhe boa sorte. Essas anedotas permitem ao filme se colocar em rota de colisão com o mito que a mídia tenta criar de Pepita. A visão da personagem perigosa é ridicularizada o tempo todo. Quando é presa, o objeto que pode incriminá-la, que o policial retira dos pacotes que a personagem carregava, é um brinquedo de criança. A própria “pistola” é apenas o cabo do guarda-chuva da filha. Mesmo os assaltos parecem brincadeiras de menina fazendo arte… A história da protagonista pode dividir o filme em dois momentos. No primeiro, vemos Susana às voltas com suas dificuldades financeiras, a deambular pelas ruas, com a filha a tiracolo, tentando vender quinquilharias e vivendo em um local inóspito. Trata-se de cenas típicas de uma história melodramática. O segundo momento começa no instante em que lhe ocorre a ideia de cometer os assaltos, ao olhar para a casa de empréstimos. Nessas imagens, significativamente, ao fundo há um cartaz com os dizeres “a vivir dignamente”. Há algo de pueril, naïf, no comportamento de Pepita quando utiliza o dinheiro dos assaltos nos passeios e diversões. De modo que se pode julgar que ela passa a viver de uma forma que seria “digna” do ponto de vista da ideologia de determinada classe social. Entretanto,“vivir dignamente” pode também significar que, nesse momento, ainda que por um ato radical, ela deixa o papel de vítima para tomar em suas próprias mãos as rédeas de seu destino. A peripécia que torna a heroína mais dona de si vai se confirmar na decisão de facilitar sua captura para inocentar a outra mulher, mãe de duas filhas.
Em “A História Quase Verdadeira de Pepita, a Pistoleira”, o “quase” é uma forma irônica de se referir à divisão do cinema em ficção e documentário. Beatriz Flores Silva sabe muito bem como a história (não precisa ser a oficial) sempre tratou as mulheres. O filme brinca com as categorias documentário, ficção, propondo uma nova maneira de se narrar histórias e uma estética distinta do que se fazia até então. Por isso, tornou-se um marco no cinema uruguaio.

 

(Ensaio desenvolvido por ocasião do 8o Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, publicado originalmente aqui)

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