Até o Sol Tem Manchas

(“Hasta El Sol Tiene Manchas”, Julio Hernández Cordón, Guatemala, 2012)

por Janaína Andrade

No início de “Até O Sol Tem Manchas”, somos apresentados à recente história da Guatemala por meio de um documentário oficial (imagens de arquivo) que fala do país a partir do ponto de vista dos partidários de Jacobo Árbenz Guzmán, militar e político guatemalteco que sofreu um golpe orquestrado pelo governo norte-americano em 1954. Não somos informados sobre o golpe ou a guerra civil (que foi cenário do país durante muitas décadas), mas logo a princípio somos remetidos a uma imagem-estereótipo da Guatemala: o país das bananas.

Ousado na forma, o longa nos transporta a um segundo momento onde o fundo documental e histórico é ultrapassado. Uma das coisas que marca o arrojo desta produção cinematográfica é toda uma parede pintada de giz amarelo que serve de fundo para as várias performances feitas ao espectador. Como se pode desenhar e apagar o que se desejar no fundo, este muda ao bel prazer dos personagens que circulam pelo quadro. Não se trata da inserção do making of, bastante comum no cinema contemporâneo, mas de criar uma instabilidade entre a figura e seu contexto, permanecendo dele apenas a textura e a cor do giz.

E a relação oscila mais porque os personagens são bastante estranhos. Um deles é Pepe Moco, um rapaz com retardo mental que deseja a eleição de Manuel Baldizón, candidato à presidência cuja principal promessa é tornar real a participação da Guatemala na Copa do Mundo. Além dele, destaca-se um batedor de carteira que ataca suas vítimas de uma maneira hilariante, ao derrubá-las de surpresa com uma bola de tênis. Um travesti gordo, vestido com um negligée transparente e preto, também faz parte dessa galeria de figuras esquisitas e engraçadas, principalmente porque ele atravessa a tela num patinete. O nonsense parece atribuir um sentido diferente ao “sí, puede!” vazio da propaganda do candidato de Pepe, tantas vezes repetido: afirma-se obliquamente que tudo é praticamente permitido no mundo da criação artística e, portanto, no cinema.

Além disso, o diretor compartilha informações privilegiadas com o espectador: conta como concebeu o filme através de cenas de bastidores, enquanto outros elementos tomam contam da tela. É também essencial a utilização de excertos literários que enriquecem a complexidade do plano cinematográfico.

Com a inserção de cenas do making of e, principalmente, a utilização de subtítulos (que funcionam como uma espécie de comentário do autor, a nos guiar pelas cenas), Hernández Cordón estabelece em “Até O Sol Tem Manchas” outra construção: a de um olhar para o cinema guatemalteco. O diretor enfatiza a maneira como elabora o filme e, numa única cena, que destoa do padrão estético de grande parte do longa, revela seu ponto primordial: vemos um helicóptero enquanto os subtítulos nos contam que, com orçamento suficiente, o cineasta faria uma superprodução com locação em praia chinesa, sereias negras e piratas holandeses. Com esta proposição, Hernández Cordón confere um viés crítico ao cinema hollywoodiano e provoca aqueles que o tomam como guia.

O diretor opta seguir um caminho distinto e utilizar diversos elementos da cultura da Guatemala, permitindo que estes atuem de forma a pautar e influenciar a construção do olhar que se pretende no filme. Poetas e músicos emprestam suas contribuições para que Hernández Cordón se aproprie delas e lhes dê outra significação. Os diálogos literários, notadamente, são usados e abusados de forma enaltecedora para remeter a autores como Ángel Gonzáles, Federico García Lorca, Fernando Pessoa e Miguel Hernández, propiciando uma inserção acurada neste filme que tem uma percepção distinta de cinema. Noutro momento, numa combinação inusitada, Hernández Cordón apresenta seus colaboradores e amigos, enquanto ouvimos a música de um grupo de rappers guatemaltecos dizendo: “esto es lo que veo cuando me paseo yo por el gueto”, que retrata uma crua realidade da Guatemala.

Numa dessas recorrências aos subtítulos, é citado um fragmento de A su familia, de Federico Garcia Lorca, e um dos personagens grafita num muro o que parece ser um homem prestes a se imolar. A menção termina com o trecho “¿Qué hago yo ahora en Granada?”, e o diretor se permite uma licença poética ao mudar para “¿Qué hago yo ahora en Guatemala?”. Hernández Cordón também recorre a Jean Cocteau para compor o nome do filme. Aludindo à dedicatória presente no livro Ópio: diário de uma desintoxicação, o cineasta cita o excerto “Até o sol tem manchas. Seu coração não as tem. Você me oferece diariamente este espetáculo: sua surpresa ao saber que o mal existe” e, em outra ocasião, diz que, entre diversos fatores, decidiu que o filme seria amarelo porque o sol nasce para todos. Tendo em vista estes dois momentos, podemos ver a determinação de Hernández Cordón em estabelecer seu olhar sobre uma Guatemala que se constrói cheia de dualidades.

Assim, “Até O Sol Tem Manchas” é um mergulho profundo na Guatemala. O filme versa primordialmente sobre a trajetória desse país, e é de forma graciosa que o cineasta integra o que lhe é caro – o cinema e seus amigos – a essa trajetória. Dessa maneira, assim como na música do grupo de rappers, o filme mostra lo que ve Julio Hernández Cordón.

(Ensaio desenvolvido por ocasião do 8o Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, publicado originalmente aqui)

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