Cobrador

(“Cobrador”, Paul Leduc, México, 2006)
por Daniela Gillone

O filme “Cobrador” parte do conto homônimo de Rubem Fonseca que conta a história de um operário que vive no Rio de Janeiro. Ao ser humilhado pelo dentista, este personagem se transforma num matador perigoso, a fim de cobrar da sociedade o que ele acha que esta lhe deve: “Estão me devendo comida, boceta, cobertor, sapato, casa, automóvel, relógio, dentes. Estão me devendo”.

Assim como no conto, o filme começa com o cobrador no consultório odontológico e prossegue dando sequência aos assassinatos relatados no livro. Porém, o personagem cinematográfico não fala uma só palavra, ao contrário do de Fonseca. Outra diferença é que o conto privilegia a linearidade narrativa, ao passo que Leduc entrelaça várias histórias paralelas, que acontecem em diversos países da América.

Os personagens transitam por várias cidades. O cobrador (Lázaro Ramos), quando descobre que está sendo procurado pelos assassinatos que cometeu em Nova Iorque, segue para a Cidade do México. Lá, conhece Ana (Antonella Costa), uma jornalista argentina que se torna sua amante e parceira. Juntos decidem matar pessoas públicas importantes do cenário mundial e sabotar alguns estabelecimentos comerciais.

O principal alvo da dupla é Mr. X (Peter Fonda), magnata e serial killer que vive em Miami e circula por Buenos Aires e Nova Iorque. Este personagem é dono de uma mina de ouro no Brasil que fica aos cuidados de Zinho (Milton Gonçalves), um militar assassino e sem escrúpulos que está à procura da dupla.

Atores brasileiros, argentinos, mexicanos e norte-americanos formam o elenco de “Cobrador”, além de o autor do conto ser brasileiro e o diretor, mexicano. Forma-se, por assim dizer, um “time” interamericano, o que sugere que o filme pretende refletir sobre as figuras de resistências da esquerda continental nos tempos atuais.

Todos os personagens principais estão envolvidos de algum modo em atos de violência. Por exemplo, entre o cobrador e o magnata parece não haver nenhuma diferença, ambos são agressivos e cometem os maiores assassinatos, sendo completamente diferentes em dois aspectos. O homem rico é poderoso – nenhuma autoridade o persegue mesmo sendo um serial killer; ao contrário do cobrador, que tem de se esconder para fugir do cerco da polícia. Evidentemente, com sua arrogância, matando covardemente mulheres solitárias e indefesas, o magnata não desperta nenhuma empatia nos espectadores. O mesmo se passa com Zinho, o policial que é capaz de assassinar uma criança de sete anos para contentar a amante. Já o cobrador desperta a simpatia das crianças do filme e inspira o amor de uma jovem, além de ter um passado sofrido.

É claro que nenhum destes elementos faria do cobrador uma personagem positiva de fato. Esse indício de empatia serve apenas para torná-lo mais complexo. É em função do adensamento do personagem que Lázaro Ramos lhe empresta um aspecto feroz e melancólico, tornando-o ainda mais enigmático. O fato de não proferir nenhuma palavra deixa ainda mais incompreensível a sua ação, já que não há nenhuma fala que nos faça entender os motivos que o levaram a agir desse modo. Mesmo o manifesto, que ele e a namorada publicam, é apenas uma cobrança, um desabafo raivoso. De modo que o que caracteriza a ação do cobrador é sua ininteligibilidade. Mas é justamente este enigma que o torna uma fratura visível, que incomoda.

Da mesma forma, a mina brasileira é praticamente uma ferida exposta no meio da selva. Uma câmera aérea sobrevoa a floresta para logo enquadrar um enorme buraco que corta a uniformidade da imensidão verde da mata. Imagens de milhares de mineradores, que lembram Serra Pelada, confirmam a fissura provocada pelo ouro, tanto na superfície terrestre como na vida das pessoas. Na mina brasileira do magnata, as cores opacas, provocada pela poeira levantada pela mineração e o trânsito das pessoas, tornam as imagens fantasmagóricas, e os mineradores, cobertos de pó, parecem mortos vivos, que estão deambulados sem rumo. Mesmo a mina fechada, no presente, ainda é uma chaga, solo arrasado, infértil, pura rocha carcomida.

O magnata é também um homem cindido psicologicamente, está doente, assim como Zinho, mas eles podem ficar incógnitos, devido ao poder que têm de ocultar que são psicopatas. Quanto ao cobrador, é uma fenda psíquica bem visível. No final, quando retorna à velha mina abandonada, começa novamente a se sentir incomodado pelo dente que o levou ao dentista. De modo que voltamos ao problema do início que detonou toda a ação furiosa do personagem.

A plástica das imagens diferencia os ambientes e personagens. Leduc utiliza várias vezes filtros azul e verde, outras vezes as imagens são em preto e branco, sempre nos lugares em que o cobrador aparece. As manifestações políticas também são apresentadas sem uniformidade plástica. A mistura de registro parece reforçar o aspecto conturbado do momento e também dos personagens que estão implicados nos movimentos de protestos.

Ao contrário, o mundo do magnata é clean, brilhante, bem iluminado, arejado. Nesses ambientes, há uma harmonia entre a iluminação, as cores e as formas. Mas este mundo de uma beleza quase asséptica se contrapõe ao ambiente sombrio pelo qual ele circula quando vai cometer os assassinatos, ou quando, em Buenos Aires, está à procura do vigor perdido. Essas variações plásticas reforçam o significado dos diferentes contextos por onde transitam as personagens. Por fim, podemos dizer que a estética do filme está a serviço de sua retórica, que procura ressignificar, por meio do cobrador, as figuras marginais que o cinema da América Latina tanto cultuou.

(Ensaio desenvolvido por ocasião do 8o Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, publicado originalmente aqui)

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