Caíto

(“Caíto”, Guillermo Pfening, Argentina, 2012)
por Mona Perlingeiro

Este filme do argentino Guillermo Pfening é sobre seu irmão Luis Caíto, que sofre de Distrofia Muscular de Becker, uma doença que leva à perda progressiva de massa muscular e provoca a paralisação dos movimentos corporais. No início da fita, são inseridas passagens de um curta-metragem feito por Pfening (também intitulado “Caíto”, de 2004) que mostram como Caíto aprendeu a conviver com a terrível doença neuromuscular. Essas imagens exibem as condições em que ele vive e sua extrema singularidade. O longa dá continuidade, portanto, à relação cinematográfica que se iniciou, anos antes, entre os irmãos. Nas duas obras se percebe o afeto e a grande cumplicidade que existe entre eles.

Os enquadramentos dos irmãos com a família, a representação do corpo de Caíto e seus depoimentos sobre a doença dão a esta história um caráter bem pessoal; afinal, se trata de um cineasta fazendo um filme, que se tornará público, sobre um ente querido em sérias dificuldades. Pfening não quer ser visto como a “voz” do irmão e não poupa esforços para deixar claro que este participou em todos os momentos da feitura do longa – por exemplo, vemo-lo acompanhar na tela do computador a montagem dos planos. Imagens reiteradas dos irmãos falando sobre a nova produção e lembrando as filmagens do curta reforçam o fato de Caíto ter desempenhado um papel ativo na realização da obra. Essa preocupação acaba produzindo um leve deslocamento de foco: a fita deixa de ser apenas sobre Caíto para se transformar no processo de fazer um filme sobre ele.

Todo esse cuidado explicita que os dois irmãos estavam bem conscientes das questões éticas que se levantam quando se faz um documentário sobre uma pessoa enferma. Para não correr o risco de acabar contando uma história apelativa, a doença passa a segundo plano e o filme se propõe a outro enredo: a dos sonhos e desejos de Caíto. Com esse objetivo, cria-se uma pequena ficção, na qual ele poderá dar vazão a seu instinto paternal (Pfening soube pela fisioterapeuta que seu irmão sonhava em ser pai) e viver um relacionamento amoroso.

Os depoimentos e as imagens do cotidiano de Caíto são substituídos por planos em que se concretiza a trama imaginada e por enquadramentos que insistem em mostrar o processo fílmico dessa encenação. Caíto deixa de ser assunto para se tornar assumidamente personagem. As pessoas que faziam parte de sua vida serão representadas por atores profissionais. Além disso, alguns personagens fictícios são introduzidos: Anita e Suzuki. Com a primeira, Caíto será paternal e, com a outra, manterá um relacionamento amoroso. Cria-se todo um quiproquó para sustentar essa história: imagina-se que a relação conturbada com a mãe e o padrasto fará com que a criança acabe estreitando laços de amizade com o protagonista. Suzuki se afeiçoará por ele porque foi o único homem que se importou de fato com ela. Enfim, uma narrativa simples e sentimental que acaba criando cenas memoráveis.

Muitas das sequências são ensaios do que deverá se realizar no filme. Essa preparação de atores permite a Guillermo dar vazão a sua extensa experiência de ator no cinema e televisão. Aliás, ele é mais conhecido como ator do que como diretor. Entre outros trabalhos, foi o protagonista de “Nacido y Criado” (2006), o quarto longa de Pablo Trapero, um dos mais importantes realizadores argentinos da atualidade.

A cena da apresentação dos personagens para os atores é feita dentro de uma piscina. Guillermo propõe uma dinâmica, na qual as pessoas correm de um lado para outro, criando um movimento ondulatório na água. Caíto é deitado sobre a água agitada e as ondas parecem insuflar movimento a seu corpo enfraquecido pela doença. A câmera enquadra de cima esta sequência, abrindo o plano de tal maneira que capta as outras pessoas tendo as mesmas sensações do protagonista. Parece não haver diferença alguma entre os corpos que boiam prazerosamente na água. A luz reverbera no azul piscina, mudando o aspecto da fotografia. As cores ficam mais vibrantes, sublinhando o momento lúdico deste “faz de conta” que se inicia, mas que não se descola da imagem do corpo de Caíto.

Andrei Tarkovski, em seu livro “Esculpir o Tempo”, diz que “os artistas se dividem entre aqueles que criam seu próprio mundo interior, e aqueles que recriam a realidade.” Caíto pode ser aquele que, por sua condição, esteja mais na posição de quem deve criar um mundo interior e, seu irmão, aquele que, por meio do cinema, (re)cria outra realidade. A viagem num quadriciclo pelo campo é o momento em que Caíto e as atrizes que representam Anita e Suzuki estão mais à vontade. A montagem contribui também para que acabemos acreditando que se trata de uma “verdadeira” ficção com atores convincentes. De modo que Caíto não apenas realiza a fantasia de ter uma mulher e uma filha, como se revela um bom ator, dirigido pelo irmão. No final, Guillermo interrompe a história fictícia para que Caíto finalize o filme da maneira que desejar, reiterando a sua posição de diretor que não quer impor ao irmão nada em que ele não participe ativamente.

A obra é impactante porque o espectador lida com o problema físico do outro, pelo estranhamento provocado pelo que é diferente. A alteridade se torna um fenômeno presente. Contempla-se em primeiro plano uma figura fora dos padrões, portadora de uma doença pouco conhecida, dando à produção uma sutil sensibilidade que acima de tudo nos mostra a relação de respeito que os irmãos têm um com o outro.

(Ensaio desenvolvido por ocasião do 8o Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, publicado originalmente aqui)

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s