Terra Estrangeira

(“Terra Estrangeira”, Walter Salles e Daniela Thomas, Brasil, 1995)
por Sérgio César Júnior

O governo de Fernando Collor de Melo (1990-1992) foi o período das privatizações de empresas estatais, do confisco do dinheiro da poupança e das demissões nos setores privados. Esta situação de instabilidade econômica fez com que muitos brasileiros tentassem buscar novas oportunidades em outros países. Walter Salles e Daniela Thomas se basearam neste contexto para construir o argumento de “Terra Estrangeira” (1995).

Paco vive com a mãe, uma costureira de origem basca que, ao saber do confisco de suas economias pelo governo, morre vítima de enfarte. A perda do dinheiro fizera naufragar o sonho que a velha senhora acalentara durante sua pobre existência: voltar à Espanha com o filho. Desolado pela perda e em dificuldades financeiras, Paco acaba aceitando contrabandear diamantes para Portugal, com a intenção de ir em seguida para San Sebastián, a terra da mãe. Em Lisboa, vive um casal de brasileiros, Miguel e Alex, que ganham uns trocados recebendo o contrabando, já que não conseguem sobreviver com o que ganham como músico e garçonete. Miguel acaba sendo morto porque decide vender por conta própria uma das remessas de pedras preciosas.

O encontro entre Paco e Alex dá sequência à trama que, apesar de tributária do romance policial, tem pouco suspense. Assim, a referência ao cinema noir é mais estética que narrativa. O forte contraste entre luz e sombra da fotografia em branco e preto sublinha a crise existencial dos personagens e os aspectos materiais dos cenários. O filme tem como locações principais, no Brasil, a São Paulo degradada do Minhocão e, na Europa, uma Lisboa decadente, reduto dos emigrantes das antigas colônias, que vêm para Portugal em busca de uma vida melhor.

A viagem, por assim dizer, de volta, 500 anos depois, revela-se desastrosa para os imigrantes, que acabam confirmando a sua situação de cidadãos de segunda classe. Personagens à deriva, não conseguem nem mesmo encalhar, como comenta Alex ao encontrar um velho barco preso nas areias da praia.

Embora agravada pelo governo Collor, a crise é bem anterior. Em “Terra Estrangeira”, as imagens de Lisboa e o contrabando de diamantes em santinhos do pau oco ligam o processo crítico da imigração aos grandes saques perpetrados pela Europa em suas colônias. Do mesmo modo, as inúmeras imagens do elevado Costa Silva – uma ferida aberta na capital paulista que leva o nome de um dos mais truculentos militares brasileiros – relaciona a crise financeira às recentes ditaduras americanas, herdeiras do processo histórico de depauperamento do continente. Como o sobrenome de Paco se pronuncia “Exaguirre”, o filme propõe um jogo de linguagem a ser decifrado. O “ex” como prefixo de Aguirre tanto pode desqualificar os novos viajantes quanto o próprio personagem lendário, já que “ex” pode ser entendido como negação. No contexto crítico do filme, a segunda opção parece mais adequada. Nesse sentido, o que se subtrai ao conquistador é a possibilidade de transfiguração de seus atos nefastos num acontecimento grandioso. Assim, a viagem dos imigrantes retira do horizonte a tradicional atmosfera épica que sempre envolveu a travessia dos oceanos.

As referências locais específicas fazem com que o mal-estar dos personagens de “Terra Estrangeira” não seja a reprodução, na esfera tupiniquim, do desconforto existencial do homem contemporâneo. Dos personagens errantes de Wim Wenders, Alex, Miguel e Paco têm pouco. “Terra Estrangeira” coloca com precisão, em suas imagens, os problemas políticos e econômicos que levaram seus protagonistas a emigrar e a discriminação que os abate moralmente e torna os personagens sem rumo. Embora a relação com outros filmes e gêneros cinematográficos seja uma constante, o filme exige uma leitura que não se atenha à mera cinefilia. As referências ao contexto cultural brasileiro, exposto no filme, se tornam, assim, matéria de análise obrigatória.

“Vapor Barato”, a música que mais se ouve em “Terra Estrangeira”, remete a outro tipo de partida. Jards Macalé a compôs em 1971, período em que muitos brasileiros deixaram o país devido à forte repressão da ditadura militar. Próximo ao movimento tropicalista, o compositor nos fala tanto de uma viagem real, aquela empreendida pelos exilados, quanto metafórica, aquela do barato ou alheamento que os psicotrópicos produzem na mente das pessoas. Vapor também tem essa dupla acepção: significa “navio velho” e, ao mesmo tempo, é o nome dado ao narcotraficante.

No filme, o tema da viagem dialoga intensamente com a canção de Macalé. A primeira frase de “Vapor barato”, “eu estou tão cansado”, reflete bem o estado de ânimo da geração dos anos noventa diante da total falta de perspectiva política, cultural e econômica. Por outro lado, a viagem, em “Terra Estrangeira”, é a realização do sonho de ir embora sem lenço e sem documento, como apregoava o hino dos tropicalistas, “Alegria, Alegria”, que Caetano Veloso fez em 1967. Vítima do governo Collor, Paco fará de sua viagem forçada uma resistência, não apenas recusando que o transformem em mais um imigrante marginalizado, mas resgatando Alex dessa condição.

Da mesma forma, preso à tradição de várias narrativas cinematográficas, especialmente ao cinema noir, o filme se liberta do carregado contraste do branco e preto para assumir uma composição mais sutil, na qual a luz prevalece sobre a sombra, a fim de ressignificar a vida, ou melhor, a morte desses personagens.

(Ensaio desenvolvido por ocasião do 8o Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, publicado originalmente aqui)

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