Nostalgia da Luz

(“Nostalgia de la luz”. Patricio Guzmán, Chile, 2010)

por Marília Bilemjian Goulart (Marie Goulart)

No deslumbrante Deserto do Atacama, o diretor Patricio Guzmán continua a busca que motivou os memoráveis A batalha do Chile (1975-1979) e A memória obstinada (1997), mas aqui a tônica é enriquecedoramente nova. Nostalgia da luz é repleto de poesia, rimas e sutilezas que puderam brotar nesse olhar que insiste em investigar um passado cada vez mais longínquo, mas que teima em permanecer na sinistra obscuridade. No Atacama, o clima seco propício à preservação da matéria e o céu transparente aproximam arqueólogos e astrônomos, personagens aparentemente distantes, mas que têm em comum um olhar, avalizado pela ciência, sobre o passado, seja observando o céu em busca da origem do universo, seja escavando a terra a procura dos vestígios da origem de nossa civilização.

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Acompanhando o fluxo do filme, junto com os personagens somos impelidos a essa volta ao passado, que afinal é o nosso tempo e também o da ciência. Pela fração infinitamente pequena que separa a imagem vista do ato do olhar, introduz-se uma lacuna temporal que faz com que tudo que vemos, mesmo com a ajuda das próteses mecânicas, tais como o telescópio, não esteja mais lá e pertença ao passado. Como consequência, para cada resposta que a ciência parece encontrar se quadruplicam as interrogações, tornando seu terreno menos palpável e mais inquietante.

Estamos imersos nessa nebulosa do passado, do mais recente ao mais longínquo; de modo que mesmo a dimensão científica adquire tons poéticos, próprios da memória e das lembranças em que se mesclam a experiência e a imaginação. No filme, a poesia é produto do trabalho das imagens, associadas à instigante trilha sonora. Nostalgia da luz é repleto de quadros que tiram o fôlego e que têm enorme força, não só pelas majestosas formas celestiais e pelas magníficas paisagens do Atacama, mas também pelas composições que combinam texturas, fragmentos e figuras que extrapolam o sentido prévio ligado ao objeto mostrado. De modo distinto ao que acontece na maioria dos documentários, muitas das belas e às vezes misteriosas imagens de Nostalgia da luz não têm função secundária, isto é, não estão aí para reforçar ou comprovar o que é dito. Acompanhadas apenas de música e apresentadas em ritmo calmo e vagaroso, próprios à contemplação, as imagens têm suas potências significativas ressaltadas: como formas poéticas, elas tocam      profundamente nossos sentidos e, mesmo sem ser completamente compreendidas pelo crivo da razão, nos dizem algo.

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Ao lado da busca de vestígios do passado no silêncio desses mundos infinitos, insere-se uma investigação sobre a recente história política chilena, marcada pela avassaladora ditadura militar. No deserto, vasto como uma galáxia, mulheres vasculham o solo procurando corpos dos desaparecidos políticos. Sem os gigantescos telescópios e sem o reconhecimento dado aos cientistas, elas contam com suas pequenas pazinhas e sua enorme força e esperança que as mantém perseverante nessa tarefa há tantos anos. Se os vestígios desse passado recente são encontrados com muito esforço, as lembranças daqueles que viveram nesse período, apesar de cada vez mais escassas, ainda estão bastante vivas para se contrapor às manobras dos governos militares que se esforçaram em apagar cuidadosamente as pistas das atrocidades cometidas.

Os mesmos fragmentos de corpos que ajudam a identificar a pessoa querida levantam várias questões. Onde está o resto das ossadas dos desaparecidos? Que aconteceu para que se encontrem apenas fragmentos deles? Assim como a ciência, cada resposta demanda uma série de perguntas, mas ao contrário desta, as interrogações sobre o passado mais recente são sempre dolorosas.

Rimas temáticas e visuais, realizadas por belas fusões, combinam esses elementos de naturezas bastante diversas como se fossem um poema. Dessa forma, a pesada estrutura do imenso telescópio, a leveza das brilhantes estrelas, a enigmática textura do solo lunar e a funesta porosidade dos pedacinhos de ossos dos desaparecidos não são elementos estranhos, mas rimam harmonicamente no cosmos do filme, que nos lembra de que todos os corpos vêm da mesma matéria.

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Nessa fusão, Nostalgia da luz nos ensina outro modo de  lidar com a tragédia provocada pelas ditaduras que assombraram quase toda América Latina. Pleno de metáforas e rimas, a poesia marca essa inquirição sobre o passado, em que se misturam as investigações da astronomia e da arqueologia e as memórias daqueles que nunca se esqueceram dos desaparecidos.

Essa memória, intensificada pela dor, exerce uma força gravitacional, como as galáxias, que puxa a todos, inclusive a Patricio Guzmán. As histórias e as buscas que compõem o documentário se confundem com suas memórias, em especial com suas lembranças de infância, um tempo calmo, em que parecia haver só o amplo presente, repleto de inocência. O adormecimento diante de tal violência histórica é posto sob o olhar da criança, que ainda tem a capacidade de questionar a desumanização de tomar como certo e natural o horror dos acontecimentos passados. Por outro lado, o encantamento, produzido pelo olhar infantil e pelo olho mecânico da ciência, infiltra nas tristes memórias deixadas pela ditadura espaços para imaginação e esperança. Entre a memória e o esquecimento, Nostalgia da luz nos traz um complexo e instigante movimento de olhar para trás; em especial, para um tempo ainda não digerido.

(Ensaio desenvolvido por ocasião do 8o Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, publicado originalmente aqui)

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