A Raiva

(“La Rabia”, Albertina Carri, Argentina, 2008)

por Grupo de Estudos Cinema Latino-Americano e Vanguardas Artísticas (CNPq/História da Arte – UNIFESP)

Em “A Raiva”, filme da diretora argentina Albertina Carri, duas crianças deficientes vivenciam um ciclo de relações violentas que as contamina de maneira inelutável. Nati vê o pai bater na mãe e tem que suportar que o amante desta se exiba obscenamente para ela. Ladeado vive com um pai patrão que o maltrata. Trata-se de uma narrativa marcada pelo domínio do forte contra o fraco e ilustrada pela matança explícita e detalhada de animais. O embrutecimento pela sobrevivência e os conflitos das duas famílias vizinhas nos pampas argentinos poderiam ser apenas uma corriqueira crônica de rudes costumes rurais, não fosse a atmosfera carregada de tensões que se cria no filme.

A mistura de cenas banais e acontecimentos brutais não deixam indiferente o espectador. Ao vermos o menino sair do bosque com uma sacola de pano e uma espingarda, seguido por dois cães, parece que estamos diante da vida simples do campo. Entretanto, quando em seguida o jovem bate fortemente a sacola numa árvore, somos tomados de apreensão imaginando que se trata da matança cruel de algum animal apanhado há pouco. Essa impressão é ainda mais desconfortável porque a sacola é jogada num pântano e somos levados a ver e ouvir o objeto desaparecer lentamente na água. Não há lugar para o cinéfilo comum usufruir da referência ao gênero noir, pois o momento citado é justamente aquele em que se faz desaparecer o corpo assassinado, além de a distensão temporal prolongar o acontecimento e a trilha sonora intensificá-lo ainda mais.

O espectador sente-se atingido pelo clima grotesco principalmente se for urbano e não estiver habituado à violência do mundo rural. Os guinchos agudos do porco tornam torturante a sua morte. Embora a pequena incisão na garganta mate rapidamente o animal, a visão do sangue a jorrar se prolonga para nós, de modo que somos levados a acompanhar, nessa prática culinária (com o sangue se faz a morcela, uma apreciada iguaria), o acréscimo de violência que ela acarreta. Pode-se dizer que se trata de um filme de difícil digestão, com o perdão do trocadilho fácil.

Além disso, o coelho no espeto lembra uma figura crucificada e o porco pendurado faz uma referência à Figure with meat, do pintor inglês Francis Bacon. A violência dos acontecimentos é potencializada por toda a carga simbólica das iconografias cristã e do estranhamento artístico. Assim, pensar que se quer evidenciar o que há de animal no homem é pouco, mesmo porque não se trata de criticar a vida no campo por meio da ótica de um urbanismo superior, que muitas vezes é ainda mais brutal.

No filme, não há silêncios, mas gradações de sons. O áudio é construído como se fosse uma partitura musical, cujo movimento dominante é o crescendo: ao allegro das vozes dos animais do campo se sobrepõem ruídos estridentes produzidos por máquinas, pessoas, etc. O espectador é envolvido auditivamente sem pausa alguma. A trilha sonora pauta a história para além de sua inteligibilidade, propondo tonalidades que surpreendem e às vezes agridem o espectador.

Enquadramentos inesperados também contribuem para criar a atmosfera intensa, como quando a câmera foca do alto os rostos dos amantes no momento mais intenso do ato sexual, tornando palpável, pela maneira inabitual de mostrar, como o gozo pode ser inseparável da dor e como ele se manifesta por meio de ríctus grotescos que lembram expressões animalescas. Tons frios e escuros produzem o aspecto sombrio das inúmeras paisagens, de modo que pela cor e a luz da fotografia. “A Raiva” é um filme belo e inquietante.

Os desenhos feitos por Nati, embora sejam traços de uma criança, são pesados: olhos vazados ou o amante da mãe nu e excitado refletem a agressividade das cenas obscenas que acaba presenciando. Como não fala, desenhar é sua forma de expressão, que lhe permite digerir a brutalidade que a rodeia. Por outro lado, se os desenhos ajudam a menina a esconjurar a violência, eles duplicam sua representação para o espectador, tornando-a ainda mais presente.

 

As animações podem ser produtos da imaginação de Nati, mas são sofisticadas demais – aquarelas coloridas e tinta negra que formam figuras e pinceladas mais ou menos abstratas. Além disso, elas não mantêm um padrão. Se no começo são ilustrações de lendas e histórias que a menina escuta ou vê, depois se tornam traços indiscerníveis, em que as cores desaparecem para dar lugar a respingos de tinta negra e alguns traços vermelhos. O aspecto simbólico se sobrepõe ao ilustrativo, deixa-se de figurar uma narrativa para marcar simbolicamente acontecimentos tais como a perda de inocência de Nati. Entretanto, o que impressiona na animação não é apenas a transformação da ilustração figurativa em simbolismo abstrato, mas os modos de animar. No começo, os personagens surgem de uma linha horizontal e são animados para realizar uma ação. Mais tarde, o movimento se concentra em espargir rapidamente a tinta na tela, impondo um ritmo frenético, intensificado pelo rock que invade a tela.

Como se pode ver, a força de “A Raiva” é resultado da combinação surpreendente de diversos tipos de imagens e de sons. Albertina Carri não se contenta em realizar um trabalho que critica a violência, o machismo e a vida limitada dos trabalhadores assalariados nos pampas argentinos. O filme busca provocar certa ansiedade no espectador, atingindo-o visceralmente, de modo que sinta a brutalidade exibida no filme. Não há como negar que o diálogo que Carri propõe a seu público é bastante instigante.

(Ensaio desenvolvido por ocasião do 8o Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, publicado originalmente aqui)

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