Dias de Santiago

(“Días de Santiago”, Josué Méndez, Peru, 2004)

por Marina Machado Ferreira

Em “Dias de Santiago”, Josué Méndez reflete sobre a situação de seu país através das aflições do jovem Santiago. O Peru teve, desde a década de 1960, guerrilheiros que pegavam em armas para combater os sérios problemas sociais e econômicos que o país vivia desde a época da colônia. Um dos grupos mais conhecidos foi o Sendero Luminoso que, na década de 1970, levou as ações armadas para o espaço urbano. Nos anos 1980, quando os regimes militares foram obrigados a abandonar o poder para as incipientes democracias, o grupo cresceu e sua ação se intensificou, chegando a controlar uma porção significativa do território peruano. A reação às guerrilhas, por sua vez, também se intensificou na década de 1990, principalmente no governo de Alberto Fujimori.

Este pano de fundo histórico está subentendido na biografia do protagonista do filme. Jovem da periferia de Lima, Santiago consegue entrar no Exército, num momento em que a instituição se abria para as classes com menos perspectivas de ascensão social porque precisava de contingentes para combater as guerrilhas. “Crianças em situação de risco”, como o jargão sociológico as denomina, estes jovens sobreviveram às penúrias social e econômica, e encontraram no exército uma estabilidade nunca antes experimentada. Porém, logo, tiveram que pagar essa promessa de uma vida melhor com suas próprias vidas ou com sua estabilidade emocional, no combate sórdido e sangrento dessa luta intestina entre peruanos.

O filme começa com Santiago, em Lima, vítima dos traumas da guerra, tentando se equilibrar emocionalmente numa cidade caótica e problemática, que não reconhece nenhum heroísmo nesses ex-combatentes de uma guerra suja. A situação crítica do grupo de amigos do protagonista, ex-soldados como ele, faz com que alguns enveredem pelo caminho do crime e outros se suicidem. Santiago é aquele que, de certa forma, resiste, tentando encontrar uma saída que não o leve à morte.

Logo na primeira cena do filme, num cenário urbano precário, o campo e o contracampo do casal, Maria e Santiago, marca a distância e o conflito que os separa. A fragilidade feminina é sugerida através da inclinação da câmera sobre seu corpo. Seus olhares receosos carregam a marca da agressão física. O desconforto de Santiago se manifesta também pelo olhar fugidio e incomodado, revelando uma fragilidade que introduz um elemento contraditório na sua figura autoritária, evidente no forte físico de soldado treinado e no cabelo rente, à moda do exército. Santiago é uma figura fraturada, vítima e algoz da violência.

O trauma da guerra marcou tão fundo que o personagem não consegue manter contato físico com nenhuma das mulheres que encontra em seu caminho. Chega a se envolver com a cunhada Elisa, personagem tão ferida e problemática quanto ele. Esta mulher, assim como Santiago, é uma sobrevivente da constante violência doméstica. O desejo de resgatá-la do inferno em que vive se choca com a própria violência com que acaba tratando Elisa, deixando claro que, entre ele e o irmão, a diferença é pouca. Mas a insistência em mostrá-lo nos momentos em que manifesta o ser delicado que ainda é, apesar de toda sua agressividade, não nos deixa esquecer que o filme quer que o vejamos em toda sua complexidade.

Em “Dias de Santiago”, são intercaladas cenas em cores e em preto e branco. As mudanças cromáticas aludem à instabilidade psicológica do protagonista e ao ambiente caótico urbano. O preto e o branco marcam a solidão de Santiago, mesmo quando está com outras pessoas. Em contrapartida, nas cenas coloridas, ele mostra curtos momentos descontração, que parece apontar para o início de uma nova vida. Mas as cores são como o Exército, prometem melhoras apenas para mostrar a sua impossibilidade, tornando mais sombrio o destino de Santiago. Os cenários coloridos deixam ainda mais evidente a degradação dos personagens e dos espaços urbanos escolhidos para ambientar a história. É a cores que se expõem, com muita crueza, as misérias da família do protagonista: o irmão é um alcoólatra violento que espanca sem piedade a mulher, e a irmã, ainda criança, sofre de abusos sexuais do pai, com a conivência da mãe.

Entretanto, o pesadelo familiar se concretiza na vida de Santiago quando do seu retorno à casa, depois de ter sido mandado para a reserva como inválido de guerra. Assim, sua angústia é provocada por uma fratura anterior, resultado das experiências militares nas selvas amazônicas. Dessas histórias, o filme não fala abertamente, elas ficam implícitas, como horrores inomináveis, suspensos, feito uma espada de Dâmocles prestes a cair.

Nisso reside a maestria de Mendez: tornar premente, ainda que de maneira indireta, na figura do soldado ensandecido pela guerra, essa história traumática que a sociedade peruana parece querer esquecer. Santiago é a ferida aberta que se nega a cicatrizar. Ao tratar a problemática por meio da experiência do militar e não pelo guerrilheiro de esquerda, a crítica do filme se torna poderosa e incontestável, pois mostra que a guerra afetou a sociedade peruana como um todo e não apenas uma facção dela. E, ao fazer de Santiago uma figura complexa, com todas as suas contradições, coloca em primeiro plano os destinos desses jovens desventurados, duplamente vítimas, tanto da miséria como da violência institucionalizada, para a qual são empurrados justamente pela pobreza, origem de todas as guerras fratricidas na América Latina.

(Ensaio desenvolvido por ocasião do 8o Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, publicado originalmente aqui)

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