Do Esquecimento à Falta de Lembrança

(“Del Olvido al No Me Acuerdo”, Juan Carlos Rulfo, México, 1999)

por Grupo de Estudos Cinema Latino-Americano e Vanguardas Artísticas (CNPq/História da Arte – UNIFESP)

“Do Esquecimento à Falta de Lembrança”, de Juan Carlos Rulfo, narra a jornada de um filho em busca do passado de seu pai, o renomado escritor mexicano Juan Rulfo. O cineasta vai a Barranco de Apulco, vilarejo de Jalisco, onde o pai passava as férias quando jovem e, nessa região, entrevista um grupo de antigos funcionários da fazenda da família e velhos moradores do lugar, com a esperança de que tenham conhecido e se lembrem de Rulfo. Porém, ele é quase um desconhecido para seus conterrâneos.

Sem ter nada a dizer sobre o romancista e lembrando pouca coisa da época em que ele visitava Jalisco, os entrevistados desandam a falar sobre o amor, a vida e a morte. Dona Rebeca e dona Fausta, ambas com mais de oitenta anos, conseguem arrancar do esquecimento, pessoal e coletivo, algumas estrofes de antigos boleros. As vozes alquebradas das velhas senhoras retiram todo traço de sentimentalismo das canções de amor que povoam o imaginário da sociedade mexicana. A exaltação amorosa se torna ainda mais intensa no percurso saudoso que dona Clara, mãe do cineasta, faz na capital mexicana para rememorar a grande paixão com Juan Rulfo.

As lembranças dos amores vividos e sonhados dão uma vitalidade inusitada àqueles corpos curvados pelo tempo. Alguns primeiros planos destacam sorrisos e olhares, reforçando ainda mais o halo de energia que as imagens desses anciãos conseguem transmitir. Detalhes das peles enrugadas e dos pés curtidos pelo pó lembram que esses corpos estão prestes a retornar à terra. Assim, o filme capta de maneira exemplar, na visualização da materialidade corporal, momentos em que a vida, graças à rememoração, parece sobrepor-se ao peso inexorável do tempo.

Os depoimentos de pessoas próximas e mais ou menos com a mesma idade do escritor mostram que Juan Carlos Rulfo se lançou, no início do documentário, na busca de “autenticidade” para a construção da figura paterna. E, diante das falhas de memória dos entrevistados, concentra-se em visualizar, nessa velha geração, instantes pungentes, em que a vida é ainda mais vida, já que está em vias de se extinguir.

A célebre frase que inicia o romance mais conhecido de Juan Rulfo – “Vine a Comala porque acá me dijeron que vivía mi padre, un tal Pedro Páramo”– mostra que não é mera coincidência que o cineasta esteja em busca do pai. Outra característica que liga o filme ao romance: ambos alinhavam retalhos de memórias truncadas, materializados em fragmentos de histórias, de canções e de lamentos. Segundo Octavio Paz, em “Pedro Páramo”, essas vozes são sussurros que “surgen de la nada aturdiendo nuestros oídos y señalándonos la proximidad de nuestra propia extinción”. Juan Preciado fala das profundezas de Comala, está morto, os rumores e murmúrios o mataram. Se a morte é o ponto de partida e de chegada desse relato fantasmagórico, na visão do célebre crítico mexicano, o esforço de Juan Preciado de reconstruir Comala, que é também o dos leitores, infunde-lhe nova vida, dando a ilusão de que a morte pode ser vencida ou pelo menos adiada.

Não é justamente isto que o filme obtém por meio da sutura das lembranças fragmentadas com a visualização dos corpos consumidos pelo tempo? As memórias imprecisas, plasmadas no filme, não são também uma tentativa de falar da vida a partir, mas também, apesar da morte? Assim, o filho não acaba reencontrando o pai por um viés, talvez muito mais intenso, do que se tivesse obtido depoimentos diretos sobre ele?

Perfis humanos, esculpidos nas rochas pelos agentes exógenos, são enquadrados em contraluz pelo filme, sugerindo que nos desertos de Jalisco, a vida esvaída se plasmou em pedra. Reproduz-se sugestivamente, em imagens, o nome “Pedro Páramo”, aquele que “se fue desmoronando como si fuera piedra”.

Os planos gerais das tomadas externas que ambientam o filme também remetem, ainda que de maneira indireta, a situações e a questões colocadas por Juan Rulfo em seus romances. Monumentalizadas e desmaterializadas pela contraluz e pela câmera ao rés do chão, personagens desconhecidas atravessam, feito fantasmas, as paisagens ermas. O som materializa a presença do vento – “el viento de la muerte”, como diria Octavio Paz. O pôr do sol, os escuros enquadramentos noturnos, a lenha sendo consumida pelo fogo são também símbolos do fim, da passagem do tempo.

Dois enquadramentos inesperados conseguem chegar ao ápice da reprodução de uma atmosfera onírica e estranha. Num deles, planos gerais de um dos páramos de Jalisco compõem uma pintura surrealista, à René Magritte. A cadeira solitária é um elemento bizarro dentro da aprazível composição cromática do enquadramento. A beleza da composição do azul suave do céu e do rosa terroso do chão é perturbada pela cadeira, elemento estranho que potencializa um aspecto que teria ficado soterrado pela plástica da paisagem: o vazio da imagem. No outro, vemos dona Fausta cantando, em primeiro plano, enquanto uma mosca insiste em sobrevoar o rosto da velha senhora. Estes planos em movimento lembram vanitas, pinturas sobre a insignificância da vida, ou melhor, aparentam-se aos ars moriendi, quadros em que se transforma a inevitabilidade da morte em arte de morrer. Resultado belo e comovente do acaso, que Juan Carlos Rulfo e a equipe de filmagem souberam aproveitar.

Não há melhor encontro entre pai e filho do que este.

(Ensaio desenvolvido por ocasião do 8o Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, publicado originalmente aqui)

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